EX-FUNCIONÁRIO do FACEBOOK relata como era trabalhar no setor de "denúncias de conteúdo"




É um verdadeiro encontro às cegas aquele que temos com o ex-polícia do Facebook — o nome não é oficial, mas até agora poucas pessoas sabiam sequer que existia um escritório em Lisboa onde 500 pessoas faziam o controlo das redes, tomando decisões sobre os conteúdos que foram denunciados pelos utilizadores. Quando chegamos ao Parque das Nações, em Lisboa, não sabemos como é a pessoa que vamos entrevistar, ou sequer que idade tem. Apenas que tem uma história para nos contar.

Com cerca de 40 anos, este lisboeta prefere não se identificar porque sabe que poderá ser sujeito a um processo judicial se o fizer. O trabalho que desempenhou enquanto polícia do Facebook é altamente confidencial, tanto que a ordem era desligar os computadores sempre que entravam estranhos ao serviço.

Ignorar, eliminar ou reportar às autoridades. Foram estas as três decisões que teve de tomar sobre milhões de publicações que analisou enquanto esteve neste cargo. Primeiro começou com difamações, depois partiu para a pedofilia. Decapitações. Assassinatos. O trabalho tornou-se de tal forma duro que o ex-polícia das redes sociais acabou no hospital — tinha medo de fazer mal à família.

Como é que começou a trabalhar numa empresa que faz o controle de segurança do Facebook?
Estava desempregado na altura — dá-me jeito não dizer quando foi. Andava à procura de emprego na internet e descobri uma coisa muito engraçada (e isto é uma indicação para as pessoas perceberem como é que podem chegar ao Facebook) que foi um anúncio para gestor de conteúdos. Mandei o meu currículo e passados 15 minutos recebi uma chamada de uma empresa de trabalho temporário. Queriam muito fazer uma entrevista.

Quando é que se realizou a entrevista?
Dois dias depois. Fui à entrevista e eles perguntaram-me quem é que eu era, o que é que fazia. Comecei a fazer perguntas sobre o cargo, gestor de conteúdos, e eles vieram-me com uma conversa do “cliente”. Havia um cliente.

Foi a primeira vez que vi uma pessoa a passar da vida para a morte, mas pior do que isso foi quando chegou à medula espinhal. Como era muito rijo, não conseguia. Teve de estar ali a serrar. Para mim foi demais.”

Que tipo de perguntas é que lhe fizeram?
Perguntaram-me o que é que eu achava sobre assuntos como pedofilia, terrorismo, violação, pornografia, discurso de ódio, ameaças, tráfico de armas. Antes de me deixarem responder, disseram: “Há de concordar que são coisas que não ficam bem na internet, e há de concordar que é preciso limpar a web desse tipo de assuntos”. Eu respondi que sim, que havia assuntos que convinha limpar da internet.

Disseram-me que estavam a gostar de mim e perguntaram-me que línguas é que sabia falar. “Falo bastante bem inglês e francês, desenrasco-me no italiano”. Contei uma história em inglês de umas férias que passei em Londres, em francês falei de umas férias que passei em Paris e em italiano disse algumas coisas, uma vez que era uma coisa mais básica. Eles disseram-me que de facto tinha um leque de valências bastante interessante. “Vamos entrar em contacto consigo mais tarde”.


Nunca revelaram qual era o nome do cliente?
Não, era só “o cliente”.

Mas perguntou qual era?
Perguntei, mas eles disseram que naquela altura era apenas o “cliente”.
EX-FUNCIONÁRIO do FACEBOOK relata como era trabalhar no setor de "denúncias de conteúdo" EX-FUNCIONÁRIO do FACEBOOK relata como era trabalhar no setor de "denúncias de conteúdo" Reviewed by Daniel Nuredo on 16 outubro Rating: 5

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